Há um desafio particular que qualquer edifício que seja colocado em uma esquina proeminente de um dos bairros culturalmente mais densos de São Paulo enfrenta: ele tem que conquistar seu lugar visualmente, sem se apresentar para a rua às custas das pessoas que estão dentro dele. O edifício Valente, executado pela FGMF Arquitetos para a incorporadora Idea!Zarvos, no bairro de Pinheiros, resolve essa tensão de uma forma que vale a pena prestar atenção.
A torre de uso misto de 21 andares fica no cruzamento das ruas Cardeal Arcoverde e Capote Valente, bem no coração de um bairro conhecido pelo caráter histórico, pelos restaurantes e pela particular qualidade de vida urbana que faz de Pinheiros um dos endereços mais procurados da cidade. A fachada do edifício parece uma composição pixelada de volumes retangulares salientes, brancos e deliberados, empilhados em uma configuração que atraiu comparações com uma torre Jenga no meio do jogo. É imediatamente reconhecível sem ser teatral.
Designer: FGMF Arquitetos
O que faz com que o design valha a pena ser examinado além da sua silhueta é a lógica que o produziu. “O Valente foi pensado de dentro para fora”, disse Fernando Forte, sócio da FGMF. O conceito, desenvolvido em conjunto com a Idea!Zarvos, foi construído em torno de uma ocupação tridimensional do espaço corporativo, utilizando unidades triplex e duplex para criar arranjos espaciais que o mercado convencional de torres comerciais raramente oferece. Flexível, adaptável e responsivo à maneira como as pessoas realmente desejam trabalhar e viver, e não à maneira como os desenvolvedores normalmente esperam que elas o façam – essa posição do design fica clara no resultado.
Esta é a terceira colaboração entre a Idea!Zarvos e a FGMF, após um edifício de 2016 que explorou layouts de escritórios não convencionais. Esse projeto anterior informou diretamente o pensamento por trás de Valente, e a continuidade mostra. A relação entre desenvolvedor e arquiteto aqui é genuinamente iterativa e não transacional, que é o tipo de condição que produz edifícios que vale a pena discutir. Cada projeto levou o briefing mais longe do que o anterior.
Pinheiros é um bairro que consegue absorver um edifício arrojado sem se deixar dominar por ele, e Valente lê corretamente nesse contexto. A massa pixelizada cria um ritmo de luz e sombra em toda a fachada que muda ao longo do dia sem a necessidade de quaisquer partes móveis. Os volumes salientes que definem o exterior também definem o interior — cada um corresponde a um espaço utilizável com uma relação específica com a vista e o ar que o rodeia.
A arquitetura brasileira vem produzindo alguns dos edifícios de uso misto mais considerados da última década. Valente é uma forte adição a essa conversa, construída de dentro para fora e inconfundível de todos os ângulos.






